Lucy Railton
Garcia da Selva

14 Dezembro 2017 · 21h30 · Museu da Marioneta

As possibilidades combinatórias de um violoncelo com outros instrumentos ou com a introdução de sons de diferente proveniências são praticamente infinitas e são alvo de abordagens muito diferenciadas nos anos mais recentes. Lucy Railton fá-lo com uma capacidade invulgar, não só de aumentar o número dessas possibilidades combinatórias, mas sobretudo por ser capaz de trabalhar cada novo detalhe, aprofundando-o de uma forma invulgar.
O trabalho de Lucy Railton estilhaça limites, corrompe a linearidade das divisões estilísticas impostas exteriormente. Ligações à música erudita, há-as certamente, mas também em proporção semelhante com que as estabelece com a música exploratória, electrónica ou jazz. Não por acaso, a lista de colaborações não só é extensa como reflecte precisamente essa diversidade – de Peter Zinovieff a Kite Downes, de Beatrice Dillon a Kenichi Iwas, de Ensemble Plus Minus à London Sinfonietta.
Lucy Railton é também curadora, tendo-se envolvido na realização de diversos trabalho sónicos desde 2009. Licenciada pela New England Conservatory (Boston) e pela Royal Academy of Music (Londres) em 2008. Desde esse ano, tem sido uma figura proeminente tanto no que se refere à performance como à música contemporânea. Fundou a nova série de música Kammer Klang (2008) e é co-directora e fundadora do London Contemporary Music Festival.

É uma das agências de Manuel Mesquita, artista multifacetado e dotado de uma inesgotável força anímica. Com Garcia da Selva, Mesquita articula os elementos contraditórios da nossa situação (tão singular como paradoxal) de pré-urbanidade pós-colonial com os símbolos de uma pop cosmopolita, universal e recursiva. Entre o dândi e o estroina, Garcia destaca-se pela imagem dúplice que deve a influências tão distantes como o hipster, cosmopolita elegante, e o coronel sertanejo, troglodita grosseiro. Ecléctico, pois claro, Garcia da Selva oferece-nos uma música nefelibata cheia de matizes telúricos: os pés podem não estar assentes na terra mas as mãos não se furtam à lama.
Dentro do corpus nervoso deste trabalho podemos entender uma diversidade de linhas de pesquisa; o cuidado enérgico que dedica às problemáticas dançantes (ouvir Behold my Keyboard EP), a atenção à situação social e política (Ambient Trouble EP) e, sempre presente, através de mecanismos mais ou menos óbvios de auto-referência, o debate sobre as questões prioritárias que giram em torno da ideia de identidade (Lobotronika #1). Os espectáculos de da Selva são amiúde acompanhados por experiências videográficas minimalistas que, oscilando entre a ilustração e o comentário, articulam símbolos visuais com os elementos das suas composições musicais, criando com eficácia um campo expandido onde sinal, som e signo se ligam para excitar o nosso nervo vibrante. Performer sage, Garcia da Selva premeia-nos com sessões musicais ricas em referências transversais, destruindo qualquer fronteira que ainda legitime divisões entre baixa ou alta cultura. A música é tudo e resolve-se toda no espaço do nosso colectivo.” José Roseira

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Morada Museu da Marioneta : Rua da Esperança 146, Lisboa
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Cartaz Nuno Moreira

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